Os Blogs e a produção teológica

Por Tiago Santos

Robusta, atraente
Perigosa, presente
Universo conexo
Mundo sem nexo
É a rede, é a rede.

A internet é o grande fenômeno da comunicação e da ligação de pessoas do século presente e do anterior. Todas as grandes mídias de comunicação – que revolucionaram o século XX – o telefone, a televisão, a música, o cinema, foram redefinidos e remodelados pela internet. A internet proveu conexão de dados e de pessoas, causando uma transformação sem precedentes na comunicação. Dados recentes do Internet World Stats indicam que, no ano de 2011, mais de 2,2 bilhões2 de pessoas no mundo estavam conectadas na internet – o que representa 1/3 de toda população do planeta.  Apenas um desses sites de relacionamento, o “facebook”, já agrega mais de 800 milhões de pessoas no mundo todo. O Brasil ocupa o terceiro lugar em números absolutos de usuários desta famosa rede social, com mais 51 milhões de pessoas conectadas.3

O famoso sistema “world wide web”, ou www, trouxe consigo uma infinitude de possibilidades que transformaram a rotina e até mesmo o vocabulário de milhões de pessoas. Ainda que afirmar isso soe como um clichê, é inegável a transformação que a internet causou na vida do homem de nossos dias – mudança tal que quase não podemos nos ver sem ela. Para alguns, quando “cai” a internet, “cai” o mundo. Algumas grandes empresas que atuam na internet como  “youtube”, “google”, “twitter”, “skype”, “facebook” se tornaram tão importantes na vida das pessoas que têm seu nome confundido com o serviço que oferecem. Hoje, tudo se acha na internet e tudo se busca na internet: informação, notícia, entretenimento, relacionamentos, comunicação, arte, e muitas outras coisas. A internet faz parte da vida do homem do século XXI.

A igreja cristã entrou na onda da internet rapidamente. Em particular, entre as igrejas de confissão evangélica, a internet promoveu avanços importantes. Ministérios passaram a ter maior visibilidade e o conteúdo doutrinário ganhou um novo veículo, podendo ser acessado por milhares e milhares de pessoas que até então desconheciam totalmente aquele ministério, igreja ou organização. Ainda houve ganhos na ampliação de contatos, na comunicação e na promoção de ideias e conteúdo.

No Brasil, a internet tem possibilitado às igrejas e organizações cristãs muitas oportunidades de sociabilização, transmissão de conteúdo, reflexão teológica e tratamento de assuntos relevantes para a igreja no contexto nacional. A fé cristã, que é a fé da Palavra, ganhou cores, imagens e apresentação atraente na internet. Sites, blogs, páginas de twitter, youtube e facebook se tornaram a porta de entrada para introdução e debate nos grandes e importantes temas da teologia cristã. As vantagens são muitas, e outros cooperadores deste volume certamente demonstrarão o valor do uso correto desta poderosíssima ferramenta como meio para reflexão cristã.

Procurarei oferecer aqui uma palavra de cautela, considerando o ambiente pós-moderno em que vivemos e alguns desafios que a exposição da internet pode gerar. Ao fim, buscarei oferecer alguns conselhos para o uso saudável e edificante da internet e de blog que tenham o fim de promover conteúdo teológico.

INTERNET: O LABIRINTO DE ECO
Se a internet representa uma grande revolução no mundo da comunicação e da conectividade, ela também é um espelho do mundo das ideias que marcam nosso tempo. A internet é, possivelmente, a representação mais fiel da principal visão de mundo de nossos dias: o pós-modernismo.4

O escritor italiano Umberto Eco5 foi capaz de captar o espírito de nossos tempos com uma percepção muito aguda. Em sua já famosa obra “O Nome da Rosa”, ele sintetiza de forma criativa e inteligente a cultura pós-moderna ocidental, toda arquitetada no conhecimento enciclopédico, mas incapaz de sistematizar a verdade.6 Eco situa seu premiado romance policial no ano de 1327, em um mosteiro beneditino, localizado nos Alpes marítimos do norte italiano, numa abadia obscura, distante, cinzenta e misteriosa onde encontrava-se a “maior biblioteca da cristandade”.

A trama gira em torno da investigação de misteriosos assassinatos na abadia, conduzida pelo frei franciscano Guilherme de Baskerville e seu auxiliar, o noviço alemão Adso de Melk, que foram à abadia para participar de uma conferência que aconteceria entre franciscanos e beneditinos. A personagem principal da obra de Eco, todavia, era mesmo a “biblioteca”. Organizada num verdadeiro labirinto – tão complexo que poderia deixar quem se aventurasse entrar nele totalmente perdido – o seu acúmulo impressionante de conhecimento era tão confuso como o próprio labirinto – sua acessibilidade não significava coesão e sentido: “A biblioteca é um grande labirinto, signo do labirinto do mundo. Entras e não sabes se sairás”.7

O ambiente cultural em que vivemos é exatamente como a biblioteca de Eco e o universo fragmentado e cheio de caminhos da internet representa muito bem esta mentalidade. O Google e o Wikipédia, por exemplo, realizaram os sonhos mais ambiciosos que as famosas enciclopédias do passado ansiavam, com seus vastos e volumosos tomos: o de reunir num só lugar uma infinidade de conhecimento. Mas essa abundância de informação não representou, necessariamente, profundidade intelectual para a humanidade. O Google deixou as pessoas mais sabidas, mas não mais inteligentes. Hoje é possível conhecer os assuntos mais variados, mas esse conhecimento não tem redundado em formação. Hoje estamos a um “clique” de praticamente qualquer informação que desejarmos acessar, mas ficamos perdidos diante deste conhecimento. Nesses tempos em que se tem tanto acesso a informação, temos também uma séria crise de formação. Adler & Vand Doren foram precisos em sua observação quando disseram que “a informação de fatos antes desconhecidos sem o entendimento deles pode promover uma mudança quantitativa em nossa mente, mas não qualitativa. A mente permanece essencialmente como estava antes”.8

E O QUE A TEOLOGIA TEM A VER COM ISSO?
A informação teológica está tão disponível como nunca esteve antes. Uma rápida pesquisa no “Google” que envolva as palavras “blog” e “teologia” resultará num número extraordinário de blogs e sites que oferecem um amplo escopo doutrinário, com reflexões, textos elaborados, respostas, fórmulas, declarações, afirmações e ensinos, polêmicas, todos pretendendo servir de orientação certeira para o leitor que procura alguma direção ou informação sobre qualquer tema teológico. O ponto é que esses vários sites oferecem direções e ensinos tão diferentes sobre os temas pesquisados quanto dista o “oriente do ocidente”, levando o leitor a várias bifurcações e tornando sua busca pela verdade uma tarefa extenuante. Como a biblioteca de Eco, a internet pode ser um terreno escorregadio, “insondável como a verdade que acolhe, enganosa como a mentira que encerra. Labirinto espiritual é também labirinto terreno. Poderíeis entrar e poderíeis não sair ”.9
 
Algum blog teológico já deve ter afirmado em algum lugar na internet que “a teologia é a rainha de todas as ciências”.10 Pois bem – embora esta afirmação seja verdadeira, o que ela representa? Temos de compreender bem o que é a teologia e qual o ambiente apropriado para que ela seja gestada, desenvolvida e promovida. Para determinarmos a utilidade do blog para o ensino teológico, devemos ter em mente uma definição básica de teologia. Podemos definir a teologia como sendo o estudo de Deus, de seu ser, seus atributos divinos e pessoais e de sua relação com o homem e as coisas criadas, conforme a revelação que Ele fez nas Escrituras Sagradas.

ÉTICA NA INTERNET: OFF LINE
Uma das questões mais urgentes e importantes que o escritor de blogs e texto na internet precisa atentar é a ética.11 Infelizmente, sua importância tem sido enormemente negligenciada em muitos meios onde se publica textos teológicos. O comportamento antiético na internet é espantoso. Atrás do anonimato ou mesmo de uma projeção falsa de imagem que a internet favorece, discussões sem sentido acontecem, troca de ofensas, uso indevido de material protegido por direitos autorais, enfim, é preciso resgatar o procedimento ético também na “persona” virtual.

Outro cuidado que é preciso ter com o uso da internet e, particularmente do blog, para a discussão teológica é com o acesso. Não se sabe quem está lendo os textos ou acompanhando as discussões em torno de determinado tema. Muitas vezes, um assunto complexo gera polêmicas e debates acirrados e isso fica exposto diante de pessoas que não têm compromisso com a fé cristã, ou aos inimigos da fé ou, ainda pior, aos olhos de pequeninos na fé ou neófitos – o Senhor Jesus Cristo faz um severo alerta contra aqueles que fazem tropeçar um de seus pequeninos (Mc 9.42). Na cristandade primitiva, havia uma prática chamada disciplina arcani, que era o costume de manter o conhecimento de doutrinas mais difíceis da fé cristã e o debate acerca delas, distante dos não cristãos e até mesmo dos novos na fé, com o propósito de preservar-lhes de escândalos e não confundir-lhes a mente.

Ainda é válido estabelecer a diferença entre “jornalismo teológico”  e “formação teológica”.12 O fato de um determinado tema doutrinário ser publicado em uma página de internet não torna seu autor uma autoridade no assunto. É alarmante o uso da internet por blogueiros que lidam com temas teológicos complexos com uma redação jornalística, mas sem expertise e domínio da matéria. O que se vê em muitos casos é o tratamento de assuntos difíceis e densos de modo superficial – pois a internet, e, por conseguinte, os blogs, exigem linguagem breve, dinâmica e vocabulário simplificado – mas isso normalmente resulta em lacunas e simplificações que podem confundir o leitor e não lhe oferecer a amplitude necessária para produzir suas próprias conclusões com base nas Escrituras e na teologia histórica.

UMA LONGA CONEXÃO
A fé cristã é um contraponto à caótica visão de mundo do pós-modernismo. Ela é coesa, coerente, histórica, reta, faz afirmação da verdade e é revelada. Ela tem sido transmitida pelo fenômeno do kerygma, da pregação – e a chamo de fenômeno porque sua entrega e aplicação é obra do Espírito Santo de Deus – e também pela prática da instrução pastoral, do ensino na igreja e às famílias cristãs, a catequese.

O puritano Thomas Watson (1620-1686) abre o seu “Body of divinity”, uma obra que se tornou um clássico na importante obra de instruir o cristão em doutrinas importantes das Escrituras, com a seguinte afirmação: “É de suma importância que o cristão seja instruído no fundamento da religião. É o dever dos cristãos se firmarem e se fundamentarem na doutrina da fé”.

Baseando sua obra no Breve Catecismo de Westminster, Watson sintetizou, com a precisão típica dos puritanos de seu período, a essência de toda instrução teológica: “Firmar-se e fundamentar-se na doutrina e fé”. Partindo dessa premissa, ele passa a demonstrar a importância da instrução teológica para uma vida cristã madura e uma fé robusta, capaz de resistir às provas do falso ensino e capaz de levar o cristão ao crescimento e firmeza na fé.

Há muita sabedoria na instrução de Watson. Em suas palavras, ele segue uma tradição antiga e bem sucedida que se consolidou como o método mais eficiente de transmissão de instrução teológica para o povo de Deus: a catequese. Nesse método, um corpo básico da doutrina cristã é transmitido pelo pastor ao rebanho, através de perguntas bem elaboradas e respostas com ampla fundamentação bíblica.  A base desse corpo teológico, via de regra, era o Credo dos Apóstolos, a Oração do Senhor, e os Dez Mandamentos. O pastor visitava os fiéis, fortalecendo sua fé por meio de exortações à devoção e incentivando-os se agarrar à mensagem das Escrituras.

A prática da catequese ganhou novo vigor a partir da Reforma do século XVI. A necessidade de instruir na fé os cristãos levou os mestres da igreja a produzir catecismos e confissões de fé que formaram, naquele período, um dos corpos mais ricos de doutrina cristã. Um exemplo da prática bem sucedida da catequese se viu em Richard Baxter, um ministro puritano contemporâneo de Thomas Watson, que foi um grande mestre do trabalho pastoral catequético. Durante seu ministério na pequena vila de Kiddermister, no interior da Inglaterra, mudanças profundas aconteceram por causa do zelo pastoral de Baxter. Diz-se que quando de sua chegada à cidade, “podia-se contar nos dedos de uma mão os que eram realmente piedosos, mas, ao fim de seu ministério naquela vila que tinha pouco mais de 3.000 habitantes, não havia uma única casa onde não houvesse crentes. Conta-se que, quando um viajante passava pelas ruas da cidade num certo horário do dia, podia-se ouvir de longe o canto de louvor que se proferia nas casas daquela vila”.13 Em sua obra prima sobre a atividade pastoral, Baxter dá especial atenção ao trabalho catequético do pastor, dizendo o seguinte:

Nossa preocupação pastoral deve ser com todo o rebanho, com toda a comunidade. (…). Temos de nos dedicar aos indivíduos da igreja; precisamos conhecer cada pessoa que está a nosso cargo, pois como poderemos olhar por elas se não as conhecermos? (…). Nosso trabalho consiste em: confirmação, progresso, preservação, restauração e consolação.14

Na prática pastoral de Baxter, ele tinha o propósito de “ensinar os pontos fundamentais da doutrina, para a edificação do cristão e sua progressão na fé e na verdade”.15

Por séculos, a teologia tem sido desenvolvida na igreja através das demandas pastorais e do estudo aplicado e disciplinado das Escrituras e o conhecimento teológico tem sido disseminado para os cristãos através da pregação e de uma catequese pastoral intencional e dirigida às necessidades do povo de Deus. Nossa geração precisa relembrar desse velho e eficiente princípio. Ainda que a internet e o blog possam, efetivamente, oferecer uma boa palavra ao leitor ou ouvinte, a instrução sólida será aquela que é rotineira, pastoral, dominical, que envolve investimento de tempo e de atenção aos problemas reais que as pessoas experimentam. As pessoas precisam ser pastoreadas e os blogs não poderão fazer isso por elas. O pastor virtual terá uma ovelha virtual.

A COMUNIDADE DA FÉ COMO O ESPAÇO DA TEOLOGIA
A teologia cristã é produzida na igreja. Ela é fruto de demandas pastorais. Sem o povo de Deus, sem os dilemas humanos da dramática peregrinação cristã, sem batalhas contra o pecado, lutas com as angustias e sofrimentos da vida, crises existenciais, relacionamentos – conjugais, fraternais, familiares -, esforço pela santidade, enfim, sem as demandas pastorais não há produção teológica, não se pode falar em produção teológica.

Para citar um único exemplo de como a produção teológica tem sido fruto de grandes demandas pastorais, podemos considerar uma das obras teológicas mais importantes de todos os tempos: As Institutas de João Calvino. Estas, segundo o próprio Calvino, era o que ele considerava como a principal apresentação oficial de seu entendimento da fé cristã. Ele a dividiu em 4 livros, os quais tratam da (I) Doutrina de Deus – a Criação e a Providência;  (II) dos fundamentos da doutrina da redenção, a pessoa e obra do Redentor Jesus Cristo; (III) o uso da redenção em relação ao indivíduo, incluindo as análises das doutrinas da fé, da regeneração, da oração, da predestinação e da justificação e (IV) o livro que trata da Igreja, a comunidade redimida, assim como a pregação, a Ceia do Senhor e o Batismo.16 Quando Calvino justificou as razões que o motivaram a preparar as Institutas, ele afirmou:

Por causa dos muitos fiéis e não poucos santos que estavam sendo queimados (...) Pareceu-me que, a menos que me opusesse com o máximo de minhas habilidades, meu silêncio não poderia ser inocentado da acusação de covardia e traição. Foi essa a consideração que me induziu a publicar as minhas Institutas da Religião Cristã (...) Elas não foram publicadas por nenhum outro motivo, senão aquele de fazer com que os homens soubessem qual a fé dos homens que vi sendo tão vil e cruelmente caluniados.17
A motivação de Calvino para produzir teologia era o seu cuidado pastoral, era seu desejo de nutrir e sustentar a Igreja, ensinando com precisão todo o conselho de Deus; era seu desejo de encorajar os mártires e com isso ser fiel ao seu chamamento e glorificar a Deus.

Esse exemplo deve nos levar a entender que, conquanto o blog ou o site de teologia possam instigar o interesse do leitor, a boa teologia – aquela que é prática e útil para a vida - será fruto da consideração bíblica sobre demandas verdadeiras, problemas reais, lidas do cotidiano e as questões da vida. O espaço virtual não será capaz de contemplar essas situações, nem de oferecer acompanhamento e atenção suficientes a tais questões.

DA IGREJA PARA FORA: ALGUNS CRITÉRIOS PARA COMBINAR BLOG E TEOLOGIA
Volto agora à palavra do início deste texto: a internet oferece sim vantagens para a reflexão teológica. Fazemos bem em fazer uso desta ferramenta tão poderosa. Mas precisamos de balizas, de critérios, de sabedoria e discernimento se queremos oferecer um conteúdo que seja abençoador e edificante ao povo de Deus. Nesta parte final, quero propor 15 conselhos para o blogueiro cristão usar como princípio para seus textos e postagens:

1.    O blogueiro precisa estar consciente do ambiente perigoso e sem nexo que é a internet e, assim, ser muito cuidadoso quanto à seleção de conteúdo e a linguagem escolhida para apresentá-lo aos seus leitores.
2.    A produção de reflexões teológicas deve ser derivada e motivada pelo amor e zelo pela Palavra de Deus. Ele deve trabalhar seu texto para levá-lo de volta às Escrituras, instigando-o a desenvolver um espírito bereano.
3.    A boa teologia sempre refletirá o ensino das Escrituras em resposta às demandas e preocupações pastorais e ministeriais.
4.     Reflexão teológica deve ser parte do trabalho ministerial e não um fim em si mesmo.
5.    O blogueiro cristão deve se lembrar de que a fé cristã não começou em sua própria geração. Ele deve buscar respaldo no longo e antigo séquito de fieis seguidores de Cristo ao longo da história.
6.    Ele deve ter uma postura humilde e procurar trabalhar no âmbito de seus conhecimentos e experiência ministerial. (Pv 16.18)
7.    O blogueiro cristão deve examinar seu próprio coração e discernir a motivação que o leva a produzir seu texto. Ele é resultado de que preocupação? O que o levou a produzir esta reflexão? Que propósito almeja?
8.    O blogueiro cristão deve estar ligado a uma igreja local e ter comunhão com ela. Dificilmente ele terá algo a oferecer para o leitor se ele mesmo não for parte da comunidade visível de Deus na terra, a igreja.
9.    O blogueiro cristão deve ser uma pessoa madura na fé, que produz seus textos de forma equilibrada, consciente e cuidadosa, buscando sempre a edificação do leitor.
10.    O blogueiro cristão deve conhecer bem a teologia. Há muitos “teólogos de internet”, que obtiveram seu conhecimento doutrinário através da leitura da… internet. Sem o aprofundamento que a vida de igreja e a academia cristã oferecem, não é prudente se aventurar a produzir um blog de teologia.
11.    O blogueiro cristão deve ser muito cuidadoso com a ética, especialmente no tratamento a outro irmão na fé. Deve lidar com o leitor virtual como se estivesse face a face com ele.
12.    O blogueiro cristão deve refletir os valores da fé e da ética cristã em seus textos, procurando oferecer uma palavra boa, graciosa, verdadeira, firme e bíblica.
13.    O blogueiro cristão deve ter cuidado para não se envolver em polêmicas vazias, denúncias sem propósitos, fofocas, intrigas e discussões áridas (Ef. 5.4).
14.    O blogueiro cristão deve ter o discernimento de não tratar certos assuntos na internet. O blog nem sempre será o lugar mais apropriado para se tratar de assuntos mais espinhosos ou complexos da fé cristã. Não é lugar também para a exposição de dilemas e crises de fé (esse lugar é a oração e a comunhão com os santos, na Igreja). É preciso ter sensibilidade com o leitor que não domina certas matérias e com a possibilidade de causar tropeço aos novos na fé.
15.    O escritor de blog deve ser alguém que lê bons livros teológicos e que está bem informado das tendências e pensamentos teológicos de sua própria época. Charles Spurgeon, o grande pregador britânico do século XIX, ao falar sobre a importância dos livros disse o seguinte:

Paulo foi inspirado pelo Espírito, mas, ainda assim, quer livros! Ele esteve pregando por pelo menos 30 anos, mas, ainda assim, quer livros! Ele viu o Senhor, mas, ainda assim, quer livros! Ele foi arrebatado ao terceiro céu, e ouviu coisas que eram proibidas ao homem pronunciar, mas, ainda assim, quer livros! Ele escreveu a maior parte do Novo Testamento, mas, ainda assim, quer livros! O apóstolo disse a Timóteo e da mesma forma diz a todos os pregadores: ‘Aplica-te à leitura!`.

O homem que nunca lê, jamais será lido; aquele que nunca cita, jamais será citado. Aquele que nunca usa os pensamentos do cérebro de outros homens,  prova que ele mesmo não tem cérebro. Irmãos, aquilo que é aplicável aos ministros também é verdade a todo o nosso povo. Você precisa ler. Renuncie o máximo possível todo tipo de leitura artificial, mas estude o máximo possível as sólidas obras teológicas, especialmente os escritores puritanos, e comentários da Bíblia. Estou completamente persuadido de que a melhor forma de você gastar o seu tempo de lazer é lendo e orando. Assim, você será capaz de extrair muitas informações dos livros, as quais depois poderão ser usadas como verdadeiras armas a serviço de seu Senhor e Mestre. Paulo clama: ‘Traga os livros`. Junte-se a ele nesse clamor.18
O blogueiro cristão deve estar debaixo da convicção de que realmente tem algo importante a dizer, de que tem um conselho bom a dar, de que tem uma direção segura para apontar, de que sua palavra será relevante e útil para a edificação da Igreja e glória do Pai.

Que o Senhor nos ajude a fazer teologia com responsabilidade e a usar com sabedoria os meios que temos à nossa disposição para disseminar as imutáveis verdades do santo evangelho de Jesus Cristo.

Tiago Santos
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1Este ensaio foi originalmente publicado em Blogs Evangélicos; O Impacto da Mensagem Cristã na Internet. 1a. Edição., organizado por Valmir Nascimento. Visão Cristocêntrica: Campina Grande [PB], 2013.
2Internet World Stats. Disponível em: http://www.internetworldstats.com/stats.htm. Dados de 2011, Acessado em setembro de 2012.
3 Ibid: http://www.internetworldstats.com/south.htm
4 O pós-modernismo é uma maneira de ver o mundo – mas um mundo fragmentado; é uma “categoria espiritual”, conforme definiu Umberto Eco. No mundo pós-moderno, a verdade não é objetiva; não pode ser conhecida – antes, é uma construção que pode variar de acordo com uma série de fatores; não se fala mais em metanarrativa, mas em “uma história dentro de uma história, dentro de uma história”, num ciclo sem fim, desconstruindo a noção de uma narrativa mestra – algo que é tão fundamental para a teologia cristã. Um teórico do pós-modernismo o sintetiza da seguinte maneira: “desreferencialização do real, desmaterialização da economia, desestetização da arte, desconstrução da filosofia, despolitização da sociedade, dessubstancialização do sujeito”. Enfim, devo dizer que a própria tentativa de se definir o pós-modernismo não é nada pós-moderno.
5 Umberto Eco, 1932, é escritor, filósofo, linguista e bibliófilo italiano; é professor, tendo ensinado em instituições como Yale, na Universidade Columbia, em Harvard, Collège de France e Universidade de Toronto.
6 Para dois bons guias de estudo a esta famosa obra de ficção, cf. Teresa Cristina dos Santos, “Para desvendar o Nome da Rosa”, Lumen: Revista de estudos e comunicação, São Paulo, v. 2, n. 5, p. 103-117, dez. 1996, e José Américo Motta Pessanha, “Filosofia e teologia numa epopeia policial da Idade Média O Nome da Rosa de Umberto Eco”. Comunicações do ISER, Rio de Janeiro, v. 4, n. 13, p. 8-21, mar. 1985
7 Umberto Eco, O Nome da Rosa (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, 1985) p.55
8 Mortimer Adler e Chalres V. Doren, Como ler livros (É Realizações: São Paulo, SP, 2010), p. 341.
9 Umberto Eco, O Nome da Rosa, p. 187.
10 A frase, de autoria incerta, cunhada na Idade Média, aponta para a teologia como sendo o tema de estudo mais importante no surgimento das universidades, servindo de clímax do estudo de todas as demais ciências do trivium e do quadrivium.
11 Para aprofundamento, recomendo a leitura do livreto: Como devo viver neste mundo, de R. C. Sproul, (São José dos Campos, Editora Fiel, 2012).
12 Devo esta percepção a George Hunsinger, professor do Seminário Teológico de Princeton, em debate no blog Faith and Theology, em http://www.faith-theology.com/2008/12/george-hunsinger-why-t-f-torrance-was.html, acessado em 15 de novembro de 2012.
13 William Baker, Puritan Profiles (Mentor: Ross Shire, Scotland, 1999) p.289-290
14 Richard Baxter, O Pastor Aprovado (PES: São Paulo, SP, 1996) p.100;102
15 Ibid. p. 139
16 Alister MacGrath, A Vida de João Calvino (Cultura Cristã: São Paulo-SP, 2004).
17 John Piper, O legado da Alegria Soberana (Shedd Publicações, São Paulo,SP, 2005.)p 136.
18 Ligon Duncan – citando C. H. Spurgeon [sermão 452, Paul – His cloak and his books (1882)]; Amado Timóteo, ed. Tom Ascol. (Editora Fiel: São José dos Campos, SP, 2005).

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